O blog abre espaço para a colaboração do corneteiro Aldo Votto, gremista voluntário da luta de resistência contra a IVI, radicado além-Mampituba há mais de trinta anos.

A grenalização como emulação estimulante e permanente entre Grêmio e Internacional se exauriu. Há tempos ela se degenerou num processo doentio e deletério, o grenalismo.
O marco do fim foi exatamente há vinte anos, em dezembro de 2006, quando o Sport Clube Internacional conquistou o título de campeão mundial interclubes, o maior título possível para equipes de futebol profissional até então.
A grande importância da competição entre a dupla grenal foi ter possibilitado duas agremiações com origens na primeira década do século vinte, cujas sedes estão situadas em um estado periférico do Brasil, mais precisamente na sua capital de porte médio entre as demais do país, chegarem à posição de maior destaque no futebol internacional de clubes.
Da origem na primeira década até a metade do século XX, a disputa entre os clubes azul e vermelho ficaram virtualmente apenas no âmbito municipal e estadual.
Os anos 50 elevaram Grêmio e Internacional a alguma projeção nacional: o Inter por sediar no seu estádio uma partida pela Copa do Mundo e por representar e trazer o primeiro título internacional da Seleção Brasileira, campeã do Pan Americano de 1956, e o Grêmio por ter inaugurado o campo do Olímpico, que chegou a ser considerado, à epoca, o maior estádio particular do mundo.
O futebol gaúcho viveu momentos marcantes a partir da década de 1960, quando o Olímpico foi palco de uma hegemonia gremista com doze títulos em treze disputados até 1968. Logo após, a inauguração do Beira-Rio impulsionou o Internacional a conquistar o octacampeonato estadual.
Nos anos 1970, o Inter alcançou três títulos nacionais, consolidando o Rio Grande do Sul como protagonista no cenário brasileiro. Já nos anos 1980, o Grêmio buscou igualar-se ao rival e conquistou seu primeiro título nacional em 1981, seguido pela Libertadores e o Mundial de Clubes em 1983, enquanto o Internacional trouxe ao país a primeira medalha olímpica no futebol, a prata em 1984.
Na década de 1990, a rivalidade se intensificou em uma verdadeira gangorra de conquistas e quedas. O Grêmio, após ser rebaixado à segunda divisão, ressurgiu com títulos importantes como a Copa do Brasil em 1994 e 1997, a Libertadores em 1995 e a Recopa em 1996. O Internacional, por sua vez, conseguiu apenas a Copa do Brasil de 1992, mantendo-se competitivo, mas sem igualar o brilho internacional do rival.
É nesta inflexão rumo aos anos 2000 que o grenalismo começa a viver seus estertores. Deste tempo é um indicador do quão potente e nefasto é este ismo baseado no esporte mais popular do mundo.
O grenalismo conseguiu superar até o bairrismo, o chamado ‘orgulho de ser gaúcho’, a ponto de não reconhecer que nasceu em Porto Alegre um dos jogadores mais brilhantes e queridos pelas torcidas e pelos colegas futebolistas de todo o mundo em todos os tempos, Ronaldo Assis Moreira.
Colorados não o admitiram por ser gremista e gremistas o renegaram por ter exposto o clube a uma suposta “traição” profissional e numa segunda oportunidade, por uma “deserção” intencional, ao deboche da torcida rival e Ronaldinho, que levou o gentílico “Gaúcho” como aposto para os degraus mais altos da história do futebol mundial é menos reconhecido no estado hoje do que alguns jogadores estrangeiros medíocres que jogaram na dupla.

Enquanto o Grêmio, mais uma vez, descia endividado para os porões do futebol brasileiro, o Internacional iniciava sua trajetória final para alcançar a igualdade histórica com seu clássico adversário.
Na primeira década dos anos 2000, o Internacional viveu seu auge ao conquistar duas vezes a Libertadores, além do Mundial Interclubes e a Recopa em 2006, se autoconcedendo o título simbólico de “Campeão de Tudo”.
Entretanto, essa fase de glórias acabou por gerar um período sombrio, em que o clube declarou a si próprio que já não tinha novas conquistas a alcançar e o grenalismo passou a se sustentar em comparações menores e “para baixo”, como número de rebaixamentos, tempo sem títulos nacionais, estatísticas de clássicos, propriedade os estádios, em vez de se pautar pelas grandes vitórias mundo afora.
O ápice dessa gangorra histórica ocorreu em 2016, quando o Grêmio ergueu a Copa do Brasil e o Internacional foi rebaixado à segunda divisão, simbolizando de forma eloquente a alternância de destinos da dupla.
A longa cronologia de rivalidade entre azul e vermelho, marcada por glórias e quedas, demonstra que mais do que os títulos individuais, foi a própria competição apaixonada entre os dois clubes que se consolidou como a verdadeira vencedora na história do futebol gaúcho.
A conclusão da análise da trajetória paralela de ambas as instituições é única e límpida: jamais uma delas teria chegado onde chegou se a outra não existisse e fosse igualmente tão importante e duradoura na história do futebol do Rio Grande do Sul.

O grenalismo está esgotado desde que ambos alcançaram seu lugar entre os maiores do futebol mundial.
No entanto, cabe lembrar que, embora campeões interclubes, Grêmio e Internacional estão, em vários sentidos, há dez mil quilômetros de distância da mais bem sucedida rivalidade de dupla do mundo: Barcelona e Real Madrid.
Daqui para frente, caso persista a comparação como norma da relação entre o Imortal e o Clube do Povo, que já ocorre há duas décadas pelo critério do “menos pior”, só poderá haver um resultado para os dois clubes: cada vez mais frequentes e humilhantes fracassos esportivos.
E não deve ser surpresa caso ocorra em 2026, em vez do rebaixamento dos dois grandes clubes da maior capital do Nordeste, como no Brasileirão recém-encerrado, a queda simultânea dos arquirrivais de Porto Alegre.